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Publicada por / terça-feira, 10 de março de 2009 / 10 Comments / ,

"(...) Tozé Brito defendeu esta semana que o Governo português faça um acordo com as operadoras de telecomunicações, de forma a cortar o acesso à internet a quem faz downloads ilegais de música. À agência Lusa, o músico, antigo executivo da indústria discográfica e produtor explicou que "quando as pessoas ou empresas compreenderem que o fornecedor de internet lhes veda o uso, por causa de downloads ilegais, o fenómeno desaparecerá" (...) Sobre punições de maior gravidade, Tozé Brito afirmou que "a prisão de meia dúzia de pessoas que agem ilegalmente, de forma sistemática, também teria efeitos positivos". "Não se admite que haja quem disponibilize milhares de ficheiros de música a outros, na net - os chamados uploads - e nada lhes aconteça", disse ainda. Tozé Brito advoga ainda que as autoridades e os operadores nacionais devem realizar uma campanha para sensibilizar os jovens para o facto de "roubar uma música [ser] igual a roubar um carro ". Na mesma entrevista à Lusa, Tozé Brito, orador num workshop a decorrer na Universidade Nova de Lisboa sobre a indústria da música em Portugal, lembrou que, no espaço de seis ou sete anos, as vendas de discos e DVDs , que atingiam os 100 milhões de euros por ano, caíram para metade . Para Tozé Brito, a indústria discográfica irá sobreviver, mas é necessário que os poderes públicos cumpram a sua obrigação." - in Blitz Online.

Ao longo da minha vida, devo ter-me cruzado 2 ou 3 vezes com o Tozé Brito. Sempre me pareceu uma pessoa inteligente e bem intencionada. É alguém que sempre mereceu o meu respeito. Para mais, é um grande Benfiquista (eh..eh..). No entanto, as suas recentes declarações, proferidas no Wokshop organizado pela Universidade Nova de Lisboa (porque será que quando se promovem este tipo de debates, se ouvem sempre os mesmos protagonistas e o mesmo lado da história?) são um autêntico disparate. Lamento, mas não há uma forma simpática de as definir. E explicam, em grande parte, o porquê da indústria discográfica estar à beira do colapso. Foi esta linha de pensamento retrógrada e autista, seguida à letra pelos cabecilhas das principais editoras discográficas, que provocou o desmoronamento do negócio da música gravada. A incapacidade destes senhores para compreender o presente, entender a evolução tecnológica, ler os novos tempos e antecipar o futuro, foi precisamente o que condenou o este negócio. E, aflige-me que pessoas astutas e inteligentes como o Tozé Brito continuem a tentar atirar areia para os olhos dos menos informados, em vez de olhar para dentro, assumir os erros e admitir que também ele é um dos responsáveis pela "falência" desta indústria. Quando, no início da década, as editoras discográficas encerraram o Napster, começaram a cavar a sua própria sepultura. Como se veio a provar, o software criado pelo "miúdo" Shawn Fanning não era uma ameaça para a indústria discográfica, mas sim a sua salvação. Bastava que as editoras tivessem tirado partido da sua tecnologia para implementar um novo e revolucionário modelo de negócio, onde os internautas/consumidores pudessem pagar um preço justo pela música que descarregassem para o seu computador. Em vez disso, o que fizeram os sabichões? Fecharam o Napster. Ah, valentes! Um dia depois do seu encerramento, surgiram dezenas de "serviços" semelhantes ao Naspter. Foi o começo do fim.
Desde então, a (única?) preocupação da indústria tem sido perseguir e processar indiscriminadamente todos aqueles que fazem downloads ilegais. Soluções válidas, eficazes e justas apresentadas para combater os downloads ilegais? ZERO.
Agora, o Sr. Tozé Brito quer mandar para a prisão todos aqueles que descarreguem ficheiros ilegais da internet. Porque, segundo ele, "roubar uma música na internet é o mesmo que roubar um carro". What Tha fuck!?! Que absurdo! Mas alguém, no seu perfeito juízo, acha que é esta a solução mágica que vai resolver todos os problemas das editoras e dos artistas? Caraças, esta gente ainda está mais desfasada da realidade do que eu pensava. Não admira que cada vez se vendam menos discos e se troquem mais ficheiros online. Isso, vamos fechar a internet! Melhor ainda, vamos desligar a electricidade que alimenta os computadores dos malvados dos "piratas"! Esperem, tenho uma ideia ainda melhor: vamos proibir estes tipos de respirar! Acabou-se o oxigénio para essa canalha. Está tudo louco, certo?
Pedir penas de prisão para quem descarrega ilegalmente ficheiros da internet (por favor, não confundir com "pirataria", que é algo completamente diferente...) não resolve os problemas da indústria. Nos últimos anos, a RIAA não tem feito outra coisa e os resultados estão à vista. Transformar os ISPs em polícias da internet e exigir que sejam eles a controlar e a filtrar as actividades online dos seus clientes é, no mínimo, patético. E um atentado à liberdade e ao direito à privacidade dos cidadãos. Seria como exigir à EDP para controlar o uso que os seus clientes dão à electricidade. Ou às operadoras de telemóveis que filtrem as chamadas dos árbitros de futebol que ligam para o Pinto da Costa a pedir "conselhos pessoais". Para mais, como podem os ISPs controlar o tráfego ilegal? Poderá um ISP distinguir de forma eficaz e inequívoca a diferença entre conteúdos legais e ilegais? Duvido. Reparem neste exemplo: há cerca de 2 meses, um casal amigo utilizou o Sendfile para me enviar 2 ficheiros de vários MBs com fotos de um fim-de-semana que passámos juntos. Ambos os ficheiros estavam comprimidos e protegidos com uma palavra-passe. Pergunto eu: como pode o meu ISP saber se esses 2 ficheiros que descarreguei para o meu computador continham conteúdos legais ou ilegais? Essa é a questão. E, por exemplo, ao descarregar um ficheiro mp3 disponibilizado legalmente por um determinado artista num site ou blogue, o "filtro" do meu ISP conseguirá distinguir a legalidade desse acto? Mereço que me cortem a ligação à internet por ter feito um download autorizado fora do circuito do comércio online? O que define, afinal, um download ilegal?
Compreendo a mágoa de Tozé Brito, um executivo da "velha-guarda", ao ver esta indústria desaparecer diante dos seus olhos, dia após dia. Oh, se compreendo! Afinal, estamos a falar de alguém que era responsável por uma das maiores editoras do país, alguém que estava habituado a um estatuto e a um certo número de mordomias. Acontece que, em meia dúzia de anos, tudo isso acabou. Finito. A revolução era eminente. Foi até anunciada. Mas ninguém nesta indústria estava preparado para ela e para lidar com as suas consequências. Essa é a realidade. Uma realidade que os (ir)responsáveis da indústria discográfica não conseguem admitir. Continua a ser mais fácil culpar os "piratas", os sacanas dos amantes de música que descarregam música da Internet. A "pirataria" tornou-se no bode expiatório destes indivíduos para justificar a sua incapacidade para lidar com a mudança. As consequências desta teimosia, desta cegueira, deste autismo, são visíveis: as vendas de discos descem ano após ano, editoras fecham portas e despedem funcionários. Perante este cenário catastrófico, a indústria discográfica continua sem apresentar um modelo de negócio justo e viável que satisfaça os seus interesses, dos artistas e, acima de tudo, dos consumidores que a alimentam.
Sr. Tozé Brito, deixe-se de lamurias e de apoiar práticas "terroristas" e persecutórias. Novas ideias precisam-se. Tem alguma que queira partilhar connosco? Adorávamos ouvi-la...
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10 comentários :

paxxxeco disse...

bem explanado astronauta! concordo inteiramente com a tua abordagem, e no sublinhar de que é preciso ideias em comunhão com a "realidade" ao invés da punição desenfreada. em vez de andarem atrás,de armas em riste, dos salteadores da arca, bem podiam passar-lhes à frente, estudar e engendrar um plano com benefícios mútuos. a pensar pequenino e com delay não vamos lá!
abraço bro

soares disse...

esta questão tem sempre muito que se diga. embora ache que tudo isto é um processo, infelizmente, irreversível.
Mas neste caso, o Tozé Brito defendeu um lado (a industria), o Paulo defende o outro (o consumidor), mas no meio fica sempre o artista. Nesses, cada um tem um ponto de vista próprio para este problema. Mas no fundo é quem acaba por ganhar e perder com tudo isto.
eu já há muito que deixei de lutar contra moinhos de vento, para isso já bastou o D. Quixote, mas de uma coisa tenho a certeza, a internet e a facilidade de obtenção de musica, grátis ou paga, oferecida ou roubada, tornou a música algo completamente banal e descartavel. Mais facilmente se recordam discos de há 15/20/30 anos, que os ficheiros de há 15 ou 20 dias atrás. E isso é fruto da banalização que esta arte está votada nos dias de hoje. Banalização e excessiva oferta.
Por isso, entre o que se ganhou e o que se perdeu, não sei que lado acaba mais favorecido.
Mas há coisa não se consegue negar, "sacar" algo sem que o artista ou proprietário desse bem nos tenha dado ordem, continuará sempre a ser um roubo, por muito que neste caso e apenas neste caso da musica, tentemos sempre tentar argumentar o contrário.
Por outro lado, morrem as tão despresíveis editoras, que durante anos pagaram muitos dos momentos musicais com que nos deliciamos e em seu lugar floressem e enriquecem serviços de internet, empresas de computadores, etc... que nunca gastaram um tostão para pagar a gravação do que fosse. Acho este muito mais sanguessugas e despresisseis à mais reles de todas as editoras.

O Astronauta disse...

Olá Soares,

bem-vindo à "discussão".

Tem razão quando afirma que eu defendo o consumidor. Defendo sempre o consumidor, que no fundo somos todos nós e para quem a arte é criada. Isso não significa que não compreenda os dramas da indústria e, em particular, dos artistas. Claro que sim. Eu próprio, trabalho com ambos há mais de uma década. Eu próprio, a um nível profissional, também acabo por ser afectado pelo declínio deste negócio.

Por outro lado, é importante relembrar que eu defendo que a música deve ser paga. Já o escrevi aqui e não me canso de sublinhar, para que não hajam confusões. A música deve ser paga. Os criadores a editores devem ser compensados pelo seu trabalho. Essa é uma questão que nem se coloca. É por isso que continuo a comprar discos.

O problema é que há toda uma geração que se habituou a não pagar pela música. E a culpa, na minha opinião, foi da própria indústria, que não soube antecipar o futuro e desenvolver um modelo de negócio que tirasse partido dos avanços tecnológicos. Pelo contrário, procurou sempre combater a tecnologia. O problema da indústria discográfica é que era/é uma indústria governada por "velhos burgueses", gente habituada a auferir ordenados chorudos e um sem número de regalias ganhos à custa de "exploração" dos artistas e dos seus clientes. Pior: "velhos burgueses" que nem um e-mail sabiam enviar. Quando o Napster lhes caiu em cima, essas "velhas carcaças" simplesmente não tiveram noção do potencial daquela ferramenta, da revolução que esta poderia criar. Por outras palavras: tiveram o futuro nas mãos e deixaram-no fugir. As consequências foram as que se conhecem.

Parece-me claro que as editoras têm de criar um modelo de negócio onde as pessoas sintam que estão a pagar um preço justo pela música. 15 Euros por um CD em tempos de crise não é um preço justo. 99c por um ficheiro Mp3 no iTunes não é um preço justo. Nem pensar. Mais tarde ou mais cedo, as editoras vão ter de perceber que a única solução (se é que existe uma solução) para tudo isto é criar uma mensalidade onde qualquer utilizador possa descarregar toda a música sem limites. "Toda a música sem limites? Estás louco?", dirão alguns. Mas é óbvio. Repare: "toda" a música já está disponível gratuitamente. Nada me impede de a descarregar sem pagar um tostão. Por que raio vou eu ou alguém vai aceitar pagar, por exemplo, 20 Euros por mês para sacar apenas 100 faixas/ficheiros que posso sacar gratuitamente? Essa é a questão.

A indústria vai ter de avançar num modelos deste género, se quer sobreviver.
"Fechar" a internet não resolveria os seus problemas.
Os ISPs não têm nenhuma obrigação de ser os policias da Internet. Como disse, seria como exigir à EDP que controlasse o uso que eu dou à energia que consumo. Repare, Soares: o que não falta por aí são fábricas "manhosas" a produzir produtos contrafeitos (t-shirts, ténis, calças de marca...) em máquinas que consomem imensa energia. E , no entanto, não ouço ninguém a sugerir em por a EDP a controlar a energia que essas fábricas consomem. E podiam fazê-lo. Os ISPs são apenas isso, "as EDPs da Internet": Fornecem um serviço. Aquilo que cada um faz com ele é da exclusiva responsabilidade de de cada um. Se alguém usa um computador e uma ligação à internet para fins criminais, deve ser a polícia a agir e não os ISPs...

"... a internet e a facilidade de obtenção de musica, grátis ou paga, oferecida ou roubada, tornou a música algo completamente banal e descartável." - pois, compreendo a opinião, mas não a subscrevo. De todo. Pelo contrário, passei a comprar muito mais música desde que esta se tornou "acessível" via net. Nem há comparação. Banal e descartável é a música má. Graças há internet já descobri muitas bandas/discos novos, mas cima de tudo, muitos discos "velhos", de bandas dos anos 70 e 80 que nem sabia que existiam. Bendita internet, caro amigo. Se não fosse a internet, onde descobriria eu essas banda? Na imprensa? na rádio? na televisão? Não me parece...Muitas dessas bandas "ressuscitaram" graças aos renovado interesse das novas gerações que descobriram os seus discos na net. Certo? Portanto, não vamos demonizar a internet e dizer que só trouxe malefícios à indústria.

"...Mais facilmente se recordam discos de há 15/20/30 anos, que os ficheiros de há 15 ou 20 dias atrás." - isso, caro amigo, é porque esses discos de há 20 e 30 anos atrás eram bem melhores que os actuais. eh eh...

Bem, a conversa já vai longa.
Soares, obrigado pelo teu "input" nesta "discussão".

Abraços para a Covilhã, a terra que me viu nascer.

DM Fanclub PT «Staff» disse...

101% com a visão expressa pelo Astronauta. Como se dizia numa música qualquer "wake up for reality, use you're mentality..."

Sid disse...

Alguém tentar argumentar a última exposição do Astronauta...das duas uma...ou é alguém muito limitado(vulgo velho do restelo),ou então é mesmo o Tozé Brito.Abraço "nortánhu"!

Anónimo disse...

Como disseram os Future Sound of London numa entrevista ao site Resident Advisor:

"And, now that you've stepped out, what do you make of the music business nowadays? "It's on its knees!" cackles Dougans. "As soon as accountants started to have artistic meetings in place of music lovers we knew there was a seismic change coming. But we put our trust in the sincerity and unadulterated desire for people to need and search great, resonant music out. Small companies with original music can flourish again. There will always be this desire, whatever the industries and media like to imagine. I like to think piracy and downloading are all part of a rebalancing act to put the power back in the hands of what the consumer wants, not the greed mongers who are so f***ed up with equity groups and shareholders and creating pie charts."

E estes são artistas.

Biffy

http://www.opussound2.blogspot.com/

soares disse...

bem que surpresa! Não imaginava que partilhavamos a mesma cidade natal no B.I.! GREAT!
Paulo há muito sei o ponto de vista que tens sobre esta situação, eu não contesto, nem deixo de contestar. Mas uma coisa digo-te;
- tenho saudades do tempo que se esperava por um disco e da adrenalina que dava quando se comprava e a ansia que sentia para o colocar a rodar. Esta nova geração, já mais saberá o que é isso. Desapareceu simplesmente!
Vejamos o exemplo dos U2, tanta coisa até o disco sair, passou uma semana e mais parece que o disco saiu há tanto tempo como o "Joshua Tree".
è isso que eu digo, ganhou-se com a net, mas também se perdeu. a musica tornou-se como a pastilha elastica, tem sabor até à saída do disco, assim que sai, já está desactualisado e sem sabor.
Mas...nada a fazer! "That's the world we living". Abraço!

O Astronauta disse...

É verdade, Soares, sou um Beirão de gema, nascido à 38 anos no Hospital St. Maria, na Covilhã.

Somos da mesma geração, pelo que compreendo perfeitamente o teu ponto de vista. Os tempos mudaram. Ganharam-se umas coisas, perderam-se outras. É sempre assim cada vez que o mundo avança. Também tenho saudades de alguns velhos hábitos. Não só do que diz respeito à música. Por exemplo, tenho umas saudades de ir à Luz ver o Benfica jogar às 3 da tarde...Em contrapartida, graças à televisão, hoje em dia não perco um jogo do Glorioso, seja fora ou em casa...Como disse, perderam-se umas coisas, ganharam-se outras...O importante é saber-nos adaptar aos novos tempos e não ficar agarrado ao passado...que já não volta.

Abraços

Anónimo disse...

Este Tozé Brito é um génio, não percebo como é que não é primeiro ministro ou presidente da república com estas "fantásticas" ideias. Na fnac sai um disco do carlos do carmo, pedem 19 euros por ele, passados 6 meses está a 6 ou 7 euros. Tenha vergonha sr toze brito, baixem os preços dos cds e logo verá que as pessoas diminuem os downloads ilegais.

Anónimo disse...

este toze brito devia ser presidente da republica ou primeiro ministro com estas ideias "geniais". o homem é um iluminado, um ser extra terrestre, está muito à frente do seu tempo. baixem os preços dos cds e logo verificarão retoma nas compras, doutro modo tudo fica na mesma. porque é que eu hei-de comprar um cd novo na fnac por 19 euros se 8 meses depois na mesma fnac ele custa 6 euros ?

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