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Publicada por / quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010 / 6 Comments / ,

Post-It | A vida não está fácil para os blogues de música. Como se não bastasse o sucessivo desaparecimento de alguns blogues de referência (por iniciativa dos seus autores), o decréscimo da qualidade dos conteúdos publicados (tanto “copy-paste” resulta em redundância) e a forte concorrência das redes sociais, no final da semana passada surgiram notícias de que o Google/Blogspot apagou dos seus servidores uma série de blogues, sem qualquer aviso prévio, por estes (supostamente) violarem as leis dos direitos de autor e, por consequência, do próprio Blogspot.

Conheço alguns dos blogues em questão - Pop Tarts, Masala, I Rock Cleveland, To Die By Your Side, It's a Rap e Living Ears - e considero, no mínimo, estranha esta decisão do Google, uma vez que não se tratavam de blogues exclusivamente dedicados à partilha (ilegal) de álbuns inteiros em mp3, como muitos que por aí andam. Estamos a falar de blogues que, tal como o PLANETA POP, se dedicavam à promoção e divulgação de novos artistas. Grande parte deles, devido ao prestígio e influência que conquistaram ao longo dos anos, disponibilizava legalmente ficheiros mp3 que lhes eram facultados pelos próprios artistas ou pelos seus representantes. Mesmo assim, foram apagados. Sem que aos seus autores fosse dada a possibilidade de defesa. De um momento para o outro, desapareceram anos de trabalho.

Aceito a legitimidade dos detentores dos direitos de autor em pedir a remoção de ficheiros não autorizados, mas não entendo nem aceito a decisão do Google/Blogspot em apagar os blogues "transgressores", sem um aviso prévio e, acima de tudo, sem avaliar a legalidade dos mp3 disponibilizados. Parece-me perigosa a abusiva esta decisão do Google/Blogspot que, basicamente, se reserva ao direito de encerrar qualquer blogue, sem prestar qualquer justificação ao(s) seu(s) autor(es). Ora, isto é estúpido. E uma gigantesca falta de respeito por quem escolheu o Blogspot para alojar o seu blogue.
Compreendo que o interesse do Google em dar-se bem com a indústria discográfica. Convém-lhes, uma vez que têm negócios em comum. E até reconheço que o Google acaba mesmo por ser o menos culpado nesta história. A má da fita é, de novo, a
International Federation of the Phonographic Industry, um dos "braços armados" da indústria discográfica. Para quem não sabe, a IFPI é a entidade que representa e salvaguarda os interesses das editoras discográficas em todo o mundo. Foi ela quem obrigou o Google/Blogspot a encerrar os blogues acima citados. Em alguns casos, por estes alojarem ficheiros mp3 autorizados por associados seus. Dá para acreditar?

Já o escrevei aqui e repito-o as vezes que foram necessárias: um dos grandes problemas da indústria discográfica é esta ainda pensar que vive no século passado, na época das "vacas gordas". Continua agarrada a um paradigma de negócio que morreu e não vai ressuscitar. O negócio da música gravada, tal como o conhecemos até há 10 anos atrás, está em extinção. O futuro trará um novo modelo de negócio, que ainda ninguém sabe ao certo qual será, mas todos concordam que deverá ser completamente diferente do anterior. Um modelo de negócio que será, todo ele, baseado na internet. Os CDs e os discos de vinil não desaparecerão de circulação nos próximos anos, mas a principal fonte de receitas do negócio da música gravada será obtida através da venda de ficheiros online e do ”streaming”. Os responsáveis da indústria sabem que, a curto prazo, esta será uma realidade inevitável. No entanto, por incrível que pareça, uma década depois de entrarmos no século XXI, a IFPI e os seus associados ainda não compreendem a internet e as oportunidades que esta lhes proporciona. Pior, desconfia dela. E desconfia porque tem medo de perder o (total) controlo sobre a música que os seus associados editam.

Houve tempos, não muito longínquos, em que as editoras controlavam a música que se ouvia e quando se ouvia. O disco A só começava a passar na rádio X quando a editora autorizava; o vídeo do tema B só começava a rodar na TV quando a editora Y o enviava para as estações; o álbum C só chegava aos ouvidos do jornalista Z quando a editora entendia ser a altura certa. As editoras controlavam os "media", a informação, os artistas e até as opiniões, consoante os seus "timings", interesses e estratégias. Mas os tempos mudaram. A música está à distância de um click, espalhada por todos cantos da web. E de graça. Antes de um disco chegar às prateleiras das lojas, já todos o ouviram, já todos têm uma opinião sobre ele, já todos decidiram se o vão ou não comprar. E é isso que enfurece os responsáveis das editoras, que depois se "vingam" impondo leis de "copyright" draconianas e completamente desenquadradas da realidade que se vive online. As consequências desse autismo estão à vista. Faz algum sentido a IFPI pressionar o Google/Blogspot para encerrar blogues por estes postarem mp3 cedidos pelas próprias editoras e/ou artistas para efeitos promocionais? Qual é, afinal, a ilegalidade cometida por estes blogues? O quão patético e absurdo é tudo isto? Situações como esta, são bem demonstrativas do desnorte e desespero que reina na indústria discográfica, que parece incapaz de falar e agir a uma só voz.

O próprio Planeta Pop também já foi vítima das incongruências e bizarrias da indústria discográfica, quando aqui há uns tempos o WebSheriff me notificou por mail para retirar do blogue um post que tinha incorporado um vídeo do TIGA. Video esse que, só por acaso, era o mesmo que estava disponível no MySpace oficial do artista que, por sua vez, era o mesmo que estava no YouTube. Mais palavras para quê?

Caso pretenda sobreviver, a indústria da música precisa urgentemente de repensar muitos aspectos do seu negócio, nomeadamente a sua relação com a internet e com os novos media. Mas, acima de tudo, devia colocar de lado essa sua obsessão doentia e absurda de querer controlar o acesso das pessoas à música. Não faz sentido querer controlar algo que há muito está fora de controlo. Não estou a afirmar nem a defender que a indústria deve desistir de combater a troca ilegal de ficheiros ou que deve licenciar os direitos da sua música a torto e direito, sem qualquer critério estratégico. Nada disso. Deve é fazê-lo de uma forma mais eficaz e justa. Deve adoptar um modelo mais abrangente e coerente.

Este tipo de "guerrinhas" com os bloggers - que, para todos os efeitos, são seus clientes, gente que gosta de música, compra discos e assiste a concertos - apenas piora a imagem de uma indústria que, aos olhos dos consumidores, há muito perdeu credibilidade.

Associações como a IFPI têm de perceber, de uma vez por todas, que blogues como o Planeta Pop não são seus inimigos. Pelo contrário, podem ser uma importante "ferramenta" de promoção e divulgação. Na verdade, já o são. Os blogues de música são, desde há 4/5 anos, os maiores divulgadores de música nova e os principais promotores de novos talentos. Mais que a imprensa escrita especializada, a rádio e, acima de tudo, a televisão. Parece-me que merecemos um pouco mais de respeito.

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6 comentários :

J G disse...

partilho deste ponto de vista tão bem explicado aqui.

STEREO BEATBOX disse...

Também fiquei impressionado com esta notícia. Ttabalho e pesquisa de anos ir assim para o lixo em minutos é assustador. Ainda por cima, muitas das bandas autorizam os bloggers a usar as suas músicas e crescem com eles e depois de assinarem com editoras, estas vêm reclamar direitos de autor.

É injusto.

dosul disse...

Não se estás a par desta situação, mais uma ilustrativa dos monumentais tiros nos pés que as editoras insistem em dar:

http://www.techdirt.com/articles/20100215/1235058169.shtml

O techdirt também tem um post sobre a situação do "ataque" da google aos bloggers:

http://www.techdirt.com/articles/20100216/1922168190.shtml


Abraço!

My_Little_Bedroom disse...

Amigo Astronauta, já te fiz o merecido destaque no Facebook e também sabes mais ou menos o que penso sobre este assunto - seria mais ou menos um resumo por meias palavras deste bom post.

Queria, um pouco para voltarmos ao essencial, destacar o grande disco que já por aí anda chamado "Plastic Beach" e, que se me quiserem atacar também o comentário, estão à vontade "deuses supremos da blogosfera"...

Um abraço

Paulo P. disse...

As editoras só tem o que merecem!
Não é lícito fazer downloads ilegais e é lícito "roubarem" os consumidores com os preços que praticam, 18/19 euros, por cada CD?
Ou será que tenho de esperar 1 ano ou pelos saldos, para adquirir um CD por um preço mais justo? Claro que não.
Na minha opinião, 8 euros no máximo por um CD e já é pedir muito! Mas tenham em atenção que estão a roubar os consumidores com o ressuscitar do vinil! É só ir à FNAC e ver que cada LP custa em média 20 euros, quando estes custavam cerca de 1.500$00 escudos (7,50 euros) nos anos 80. E os CDs, já nesta altura, rondavam os 2.800$00 / 3.000$00 escudos (14 a 15 euros). Por isso, tenham em atenção este aspecto porque as editoras estão a aproveitar-se dos saudosistas, indo-lhes ao bolso!

Para mim, música tem de ser comercializada num suporte físico qualquer, tudo menos digital. Há que haver o toque no vinil, na cassette ou no CD. Há sempre o livrinho (booklet) com as letras das músicas, do nome de quem produziu, dos elementos da banda, etc.
Mal comparado, as editoras estão a perder clientes como os restaurantes tradicionais perdem para o fast food tendo menus a 5 euros com o prato, bebida e café!

As editoras tem de pensar em ganhar mais com mais trabalho a preços mais reduzidos (mas que não seja à custa dos trabalhadores)e não o contrário.

Como diz o outro: seja como Deus quiser!

O Astronauta disse...

Obrigado pelos vossos comentários.

PLANETA POP | RADAR 97.8

  • SÁBADOS | 23h-01h
  • DOMINGOS (repetição) | 15h-17h
  • SEXTAS-FEIRAS (repetição) | 23h-01h

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